É com muito prazer que apresento a grande cantora lírica GLÓRIA QUEIROZ, que gentilmente nos concedeu esta excelente e esclarecedora entrevista.
Muito obrigada Glorinha.


Glória Queiroz

GLÓRIA QUEIROZ NO THEATRO MUNICIPAL - RJ.


> 1 - A partir de que idade pode se iniciar o estudo de canto lírico?
- A idade inicial para o estudo de canto lírico de um adolescente, depende de uma avaliação vocal, de seu timbre, afinação, extensão vocal, seu desenvolvimento físico, seu verdadeiro interesse e, de imediato, uma iniciação no estudo de música.


> 2 - Na adolescência quais os cuidados que o professor de canto deve ter em virtude da muda vocal?
- O professor de canto de um jovem cantor deve estar atento à forma correta da respiração, do uso firme, mas sem tensão do diafragma. Deve escolher "vocalizes" com , todas as vogais, usando as que o cantor tenha mais facilidade. Algumas consoantes ajudarão nas vogais que se apresentarem com dificuldade.
Neste momento de muda vocal, tanto o professor quanto o jovem cantor, devem ter muita paciência e nenhuma pressa, pois o instrumento do jovem cantor é "soberano", é quem comanda todo o trabalho vocal.


> 3 - Como são qualificadas as vozes no canto lírico?
- Soprano - Meiosoprano - Contralto - Tenor - Barítono - Baixo - Contra-tenor.
Existem tambem outras qualificações vocais como: Soprano Dramático - Soprano Lírico - Soprano Ligeiro - Tenor Dramático - Tenor Lírico - Tenor Ligeiro -Barítono Dramático - Baritono Lírico - Baixo-barítono - Baixo Cantante - Baixo profundo e outras.


> 4 - Você é mezo soprano, havia muitas cantoras brasileiras com este tipo de voz quando cantava?
- A partir de 1954 tivemos: Maria Henriques, Vitoria Loureiro, Nely Mary, Kleuza de Pennafort, Lily Seco, Carmen Pimentel, Leda Cunha Mello, Genuina Pinheiro, Maria Helena Mucelli, Aurora Espinola, Marilia Soren, Ana Maria Martins, Ana Maria Silvestro, Irene Valerio, Julita Fonseca, Lidia Seabra, Norina Barra, Odete Violani, Lygia Lacerda, Maura Moreira, Gisele Pereira, Angela Barros, Gloria Queiroz.

> 5 - Quais as óperas em que atuou? Qual a sua preferida?
- Atuei em, aproximadamente, vinte oratórios e em 60 personagens de ópera, mas a preferida era sempre a que estava sendo estudada.
Sempre cantei e gostei muito de "Santuzza" em Cavalleria Rusticana de Mascagni, "Charlotte" em Werther de Massenet, "Rosina" no Barbeiro de Sevilha de Rossini, "Isabella" em L'Italiana in Algeri de Rossini, "Amneris" na Aida de Verdi, "Carmen" na Carmen de Bizet e outros.


> 6 - Você cantou também no exterior.Em que países e em que óperas?

- No Brasil cantei no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Bahia, Pernambuco, Maranhão, Brasília e Minas Gerais.
Na Colômbia em Bogotá, Cáli e Mendelin as óperas: Barbeiro de Sevilha, Butterfly, Rigoletto, Cavalleria Rusticana e Traviata.
Em Portugal, programas de músicas brasileiras para a Televisão e Rádio Emissora Nacional de Lisboa, e recital de clássicos, românticos e músicas brasileiras em Évora e Ilha da Madeira.
Em Lisboa, apresentação com a Orquestra Sinfônica Nacional como solista da cantata "As sete palavras de Nossa Senhora" de Frederico de Freitas com o autor na regência.
Na Suiça, em Génève, gravações para a Radio Suisse Romande
No Chile, em Santiago, a ópera Fausto de Gounod.

> 7 - Qual a formação acadêmica dos cantores líricos?
- As mais variadas....

> 8 - No Brasil existem boas Universidades, ou ainda o estudo no exterior é mais proveitoso?
- No exterior existem muitos teatros com temporadas durante o ano todo e é, portanto, muito maior a possibilidade de atuação. Assim, o cantor que pode se mudar do Brasil, irá tentar sua carreira em melhor mercado de trabalho.

> 9 - O que os cantores devem evitar nos corais para não perderem a voz?
- Todo cantor deve usar sua voz com inteligencia, com técnica, nunca forçar seu registro vocal e conservar bem sua saúde, assim ele poderá ser solista ou corista com segurança.

> 10 - Atualmente no Teatro Musical usa-se microfone, nas óperas como isso funciona?
- No Theatro Municipal do Rio de Janeiro onde fui solista de 1951 até 1989 e continuo a par dos acontecimentos operísticos através dos amigos que lá continuam e tambem dos alunos coristas do coral do teatro, nunca foram utilizados microfones para uso dos cantores. Creio que o sistema de som seja usado apenas para os avisos importantes, antes dos espetáculos, impedindo gravações, flashes e desligamento de celulares e objetos sonoros...
O cantor de ópera só carece de microfone quando o espetáculo é ao ar livre.

> 11 - Para os cantores líricos,como está o mercado operístico brasileiro?
- No Rio de Janeiro está muito fraco. Não são mais realizadas as Temporadas de Arte Nacional, a Temporada Internacional e o Festival em novembro, onde eram montadas de trinta a trinta e cinco títulos de óperas, com três récitas de cada repetidas, num total de mais de 90 espetáculos por ano.
Estamos no mês de maio de 2007 e tivemos apenas seis récitas de Bodas de Fígaro(Mozart), no Teatro Municipal, assim mesmo montagem oriunda de São Paulo.

> 12 - Quais as dicas que poderia dar aos cantores e aos inciantes do canto lírico?
- Que tenham "DISCIPLINA" em sua vida musical.

> 13 - Sempre digo aos meus alunos de Voz, que depois de suas vozes tratadas e cuidadas, podem dispensar a Fonoaudióloga, porém a professora de canto é eterna? Concorda?
- Usar a voz para um personagem de ópera, faz o cantor dispender grande energia com todos os ensaios e muito mais, durante as récitas, por isso o cantor profissional, após cumprir seus compromissos numa grande temporada de ópera, volta ao seu "maestro" para massagear a voz, e vocalizar preparando-se para as novas "tessituras" das óperas que cantará nos seus próximos compromissos.

> 14 - Qual a diferença entre o aprendizado do canto popular e o canto lírico?
A diferença entre o canto popular e o canto lírico é a "região" em a melodia foi
escrita. A música lírica é composta na "tonalidade" de cada "qualificação vocal" (soprano, meio soprano, tenor, contralto, barítono, baixo), já a música popular pode variar a "tonalidade" conforme a comodidade vocal de cada cantor.

Para o cantor popular, trabalha-se sua respiração, seu diafragma, sua dicção
e sua verdadeira igualdade de timbre, aumentando sua resistência vocal.

Para o cantor lírico, o trabalho é bem maior, pois além da respiração, diafragma, dicção e timbre, temos que aumentar sua extensão vocal (grave, médio, agudo e super agudo), embelezando sua impostação, dentro de sua qualificação vocal. Só assim, ele poderá enfrentar o estudo inicial de uma ópera, depois a sua preparação com todos os outros cantores do elenco e, por fim, projetar sua voz, por cima de uma orquestra sinfônica, para que ela alcance até o último andar de um teatro de ópera, sem fazer uso de microfone.


Marília, aceite meu beijo e agradeço pela confiança
Glória Queiroz


Obrigada Glorinha por esta aula maravilhosa de canto, que veio acrescentar ao nosso site conhecimentos importantes a todos os cantores e amantes da Ópera. Beijo carinhoso Marilia


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